Corações Sujos: a história sangrenta dos japoneses no Brasil

Capa do livro de Fernando Morais (Foto: Divulgação)

Por Alessandro Jacó.

Com o orgulho ferido pela decepção de perder uma guerra, um grupo dos japoneses imigrantes que viviam no Brasil durante a Segunda Guerra Mundial, não acreditavam no fato de ver sua nação sucumbir perante aos Aliados (Estados Unidos, URSS, Inglaterra e França). Ao mesmo tempo em que não aceitavam, não queria ver outros companheiros a aceitarem a derrota. Para manter vivo o imponente orgulho japonês, os orientais formaram uma organização secreta chamada Shimdô Renmei, em português, Liga dos Caminhos dos Súditos, com a intenção de manter vivo o orgulho nipônico da colônia no Brasil.

Toda essa história é contada pelo jornalista Fernando Morais, no livro “Corações Sujos”, publicado em 2000, pela editora Companhia das Letras e ganhador de um prêmio Jabuti de livro do ano de não-ficção. O livro de Morais apresenta ao leitor um dos episódios históricos mais sangrentos vividos pelas colônias de imigrantes no Brasil. Descrita de maneira detalhada, a obra leva o leitor ao conhecimento da formação política e cultural da organização, a intervenção do governo brasileiro e como se desenrolou essa história, antes guardada nos arquivos policiais e passadas nas conversas dos anciões japoneses.

Os kachigumi como eram conhecidos os membros da Shindô Renmei, decidiram declarar guerra aos japoneses derrotistas, chamados de makegumi ou corações sujos, transformando o estado de São Paulo em um Japão feudal onde a “espada era a lei”. O grupo de militaristas nipônicos julgava seus companheiros de colônia “não-fanáticos”, traidores de sua nação e, portanto, merecedores da morte. A tarefa de executar as missões de atacar os derrotistas ficava á cargo dos tokkotai (abreviação de Taiatari Tokuetsu Kogeitai ou Unidades Especiais de Ataque por Choque Corporal). Durante a guerra nipo-brasileira, 23 pessoas foram mortas e cerca de 100 ficaram feridas.

Ao se deparar com um leve resumo da história da Shindô Renmei, se poderia facilmente acreditar que a organização era uma grupo clandestino, isolado e sem o apoio massivo da colônia, mas o que Morais comprova em sua obra e que a influência do grupo levou cerca de 80% dos imigrantes, em um total de 200 mil japoneses na época, a acreditar na soberania do país na batalha contra os Aliados. Ajudados principalmente pela criação da Radio Bastos, que transmitiam em linguagem japonesa noticias fantasiosas sobre a guerra, inventadas pelos fanáticos kachigumi.

A barreira entre o português local e mandarim nativo dos colonos, potencialmente foi um dos pilares para a expansão da Shindô Renmei, tornando fácil a tarefa de enganar os japoneses ainda não adeptos ao movimento. O constante crescimento da organização chamou a atenção dos olhares políticos na época, especialmente do ex-governador de São Paulo, Adhemar de Barros, que via com bons olhos o número de japoneses que podiam votar nas eleições de 1946, demonstrando assim, seu apoio ao grupo.

Na tentativa de conter a situação, o governo brasileiro através do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), em menos de um ano, deteu cerca de 30 mil suspeitos, condenando 381 e deportando 80 japoneses de volta para a terra do sol nascente.

O tempo ficou encarregado de destruir a ilusão patriótica dos fanáticos kachigumi. As notícias verdadeiras da derrota se expalharam acompanhadas da decepção, e no ano de 1947, os poucos japoneses que restaram, ainda iludidos com a vitória nipônica na Segunda Guerra, não foram suficientes para manter o braço forte da Shindô Renmei, assim, a organização se extinguia e se transformava e uma página sangrenta da história da colônia japonesa no Brasil.

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